
O desejo humano de pertencer a um grupo não é mera coincidência, é uma ferramenta evolutiva de sobrevivência. Ao participar de um grupo, a chance de se defender de perigos e de conseguir comida era aumentada. Esta necessidade é um instinto que nos faz adaptarmos o próprio comportamento para aumentar significativamente a probabilidade de sobrevivência.
Mas o que isso tem a ver com o meu sucesso profissional?
Nos tempos modernos buscamos performance nos mínimos detalhes, cada oportunidade de aumentar as próprias habilidades ou de se vender melhor para os outros membros do grupo é aproveitada. Foi ensinado que se vestir melhor aumenta as chances de vender a própria imagem. Foi ensinado que usando as palavras certas (copy por exemplo) tornamos a nossa mensagem mais persuasiva.
Modular o comportamento, a vestimenta, a comunicação para passar certa imagem para o grupo é um desejo antigo. O problema é que com a invenção das redes sociais não temos um intervalo nesta busca de aprovação. Durante todo o tempo estamos tentando nos vender, mesmo quando estamos em uma atividade particular, como em um almoço de família estamos querendo tirar a foto certa para conquistar a aprovação do grupo no formato de engajamento.
Os grandes filósofos modernos detalharam muito bem o contexto atual, trazendo a ideia de que estamos criando grandes vitrines para nos vender o tempo todo.
É exaustivo ter que se vender para todos o tempo todo, seja digitalmente ou ao vivo e a cores.
Vivemos em uma vitrine que nunca fecha. Fomos convencidos de que a nossa existência só tem valor se for embalada como um produto de alta performance. Ajustamos o tom de voz, a roupa e até as amizades como quem organiza as peças de uma vitrine de luxo. Nesse cenário, o outro deixa de ser uma pessoa e passa a ser apenas um potencial comprador da nossa imagem.
Essa é a face mais cruel da modernidade líquida que Bauman tanto alertava. Nossos laços se tornaram descartáveis e as conexões humanas foram substituídas por métricas de rede social. Se um amigo ou um hábito não serve para o roteiro do sucesso, ele é eliminado sem qualquer culpa.
Viramos gerentes de marketing da nossa própria vida, sacrificando o que temos de mais real em nome de uma aceitação que dura apenas o tempo de um clique.
O filósofo Byung-Chul Han descreve bem essa sociedade do desempenho onde nos tornamos nossos próprios carrascos. Sob o pretexto de sermos livres para criar, acabamos escravos de algoritmos que exigem que sejamos todos iguais. É uma galeria de espelhos onde a suposta originalidade é, na verdade, uma cópia exaustiva de uma receita pronta.
Estamos cansados de performar, mas temos pavor de ficarmos de fora do jogo. Como diria Bauman, o medo de ficar para trás, de se tornar obsoleto é como um chicote que nos mantém correndo atrás da performance.
A grande hipocrisia mora no fato de que pregamos a liberdade enquanto passamos o filtro da aprovação social em cada pensamento antes de ele ganhar o mundo. Se a sua identidade precisa mudar para ser aceita, ela não é mais sua. Ela é uma mercadoria desenhada para agradar o olhar alheio. Quando as boas práticas de marketing sufocam a nossa verdade, entregamos apenas uma versão plastificada de nós mesmos.
Se todos decidirem seguir as boas práticas do algoritmo em toda a comunicação, a consequência é ter várias pessoas andando, vestindo e se comunicando exatamente do mesmo jeito. Em uma era onde se prega a autenticidade, na verdade este conceito é mais uma vitrine para vender a própria imagem esculpida pelas boas práticas de marketing.
O verdadeiro diferencial no mundo moderno não é seguir a fórmula que faz o algoritmo entregar o post. A verdadeira rebeldia é ter a coragem de sustentar as próprias arestas e recusar o figurino que nos entregaram na entrada.
Grandes ideias não nascem da repetição exaustiva do mesmo conteúdo. Elas nascem do desconforto de ser a peça que não se encaixa no quebra-cabeça padrão. Será que faz sentido entregar uma comunicação para milhares de pessoas que não é exatamente o que você gostaria de estar comunicando?
É impossível agradar a todos, sempre vão existir pessoas que vão gostar das suas ideias e outras que vão odiar. O instinto visceral de pertencer foi amplificado pela conexão global promovida pelas redes sociais e nos tornou escravos da opinião alheia. O verdadeiro diferencial não é se submeter a um conjunto de regras e boas práticas do algoritmo e sim em autenticidade real, em mostrar genuinamente a maneira que você pensa.
No fim do dia, que tipo de construção intelectual estamos desenvolvendo no longo prazo se tudo o que fazemos é repetir o que os outros fazem em uma embalagem diferente?