
Fomos convencidos de que é necessário passar certa imagem para que possamos nos vender como profissionais. A postura, a roupa, as atitudes, tudo combinado para passar uma boa impressão para quem está comprando. As redes sociais viraram uma vitrine onde mostramos esta imagem que desesperadamente queremos que os outros comprem.
Se vender como bom profissional para subir na carreira, se vender como uma empresa confiável para conseguir grandes clientes. Aprendemos que precisamos nos vender o tempo todo. Modificamos nossas atitudes, nossos comportamentos, rotinas e até as amizades em nome da performance.
Você é a média das cinco pessoas que mais convivem com você. Isto quer dizer que os amigos que não servem a este roteiro de performance podem ser facilmente descartados sem qualquer remorso. Como diria Bauman neste momento, vivemos em um mundo de modernidade líquida onde tudo, inclusive os relacionamentos são descartáveis.
Fomos convencidos de que para ter sucesso, precisamos moldar nossa essência até que ela caiba perfeitamente nos moldes dos algoritmos.As boas práticas de como performar nas redes sociais modificou completamente o conteúdo que é criado. O resultado disso é uma galeria infinita de espelhos onde todos tentam ser únicos seguindo exatamente a mesma receita.
A grande ironia do tempo atual é a hipocrisia da identidade performada. Pregamos a liberdade de ser quem somos, mas logo em seguida passamos o filtro da aceitação social em cada pensamento antes de publicá-lo. Se a sua identidade precisa ser transmutada para que o público a aceite, ela deixa de ser sua e passa a ser apenas uma mercadoria desenhada para o consumo alheio.
Essa busca incessante por caber em caixinhas de performance transforma o conteúdo em algo morno e previsível. Quando as boas práticas sufocam a verdade, a conexão real se perde. Afinal, como podemos esperar que alguém se conecte com nossa humanidade se o que entregamos é uma versão plastificada e editada de nós mesmos?
Ser autêntico em um mundo de vitrines não é sobre postar fotos sem filtro ou falar de vulnerabilidade como uma estratégia de marketing. É sobre ter a coragem de sustentar as próprias ideias e não polir os cantos que nos tornam estranhamente humanos. A verdadeira influência não nasce da repetição do que já funciona, mas do desconforto de ser a única peça que não se encaixa no quebra-cabeça padrão.
A performance pode até atrair olhares, mas apenas a verdade sustenta o peso do tempo. Talvez o maior ato de rebeldia hoje seja simplesmente recusar o figurino que nos entregaram na entrada.
O grande diferencial no mundo moderno é exatamente a autenticidade, a coragem de expor as próprias ideias independe do filtro social e da aceitação do público da imagem postada. Me pergunto como vão nascer as grandes ideias quando somos encorajados a produzir repetidamente a mesma coisa de novo e de novo. Pode até existir uma fórmula que funciona e faz o algoritmo entregar o conteúdo, mas será que vale a pena aparecer sem ter a possibilidade de transmitir a mensagem certa?
Aquela mensagem que vale a pena, aquelas particularidades que formam aquilo que você é de verdade.