A Cultura do bilhete premiado

No Brasil, construiu-se ao longo das gerações uma cultura silenciosa de olhar para o horizonte em busca da própria salvação. Esperamos que o governo nos conceda a aposentadoria, que seja responsável pela saúde e por tratar o desequilíbrio social e econômico.

Enraizou-se no imaginário coletivo a ideia de que precisamos de um agente externo para resolver as próprias dores, lacunas e as dificuldades do cotidiano. Essa postura de permanente dependência, na qual o bem-estar e o futuro individual são encarados como obrigações exclusivas de um terceiro, que em alguns casos é a máquina pública, é a tradução perfeita do paternalismo estatal. Trata-se de uma dinâmica infantilizada que transforma o cidadão em um eterno tutelado e o governo em um Pai provedor.

Esta ilusão não está presente apenas na figura do estado, mas também na figura do patrão, dos pais e até da loteria. Quando algo dá errado no trabalho a culpa é do patrão que não proveu condições ideais de trabalho. Quando algo dá errado emocionalmente é porque o pai foi ausente e não providenciou a estrutura necessária para o ser desenvolver. Alguns esperam até que a loteria se encarregue do futuro e da melhoria individual.

Ao aceitar a ilusão dessa tutela absoluta, o indivíduo entrega as rédeas da própria trajetória em troca de uma anestésica ausência de deveres. O impacto dessa mentalidade no crescimento pessoal é devastador: ao terceirizar a culpa e a solução de todos os problemas, extingue-se a chama da auto responsabilidade. O indivíduo passa a habitar a sala de espera da existência, paralisado, aguardando que um evento externo e providencial venha resgatá-lo da sua própria realidade.

Esse comportamento de expectativa passiva manifesta-se claramente no desejo pelo milagre instantâneo. Uma postura cuja maior metáfora é a obsessão pelo prêmio da Mega-Sena. Condiciona-se a mudança de vida a uma virada mágica do destino, a um subsídio novo ou a uma promessa política, enquanto se deixa atrofiar o único motor capaz de gerar progresso real: a iniciativa própria. 

Esperar que o Estado ou a sorte resolva a vida pessoal é o mesmo que plantar sementes no concreto e culpar o clima pela falta de colheita.

É óbvio que existem fatores externos que têm influência na vida do ser humano, mas atribuir as consequências da vida a estes agentes é a própria definição de infantilidade.

Para se desenvolver, crescer na vida e criar um futuro melhor é necessário assumir as rédeas da vida e a responsabilidade por criar o próprio futuro independente de nadar contra uma força que puxa para ficar inerte ou para desistir.

A maturidade humana e o autodesenvolvimento não florescem na ausência de atrito; eles exigem o peso do próprio destino sobre os ombros. A capacidade de criar soluções, aprender com os tropeços e buscar a excelência funciona como uma musculatura que definha quando privada de esforço. Quem condiciona o seu crescimento a intervenções externas anula a própria força, tornando-se um espectador apático da própria história, sempre dependente da condução alheia.

A verdadeira emancipação não virá por decreto, carimbo burocrático ou bilhete sorteado. O autodesenvolvimento autêntico começa quando se rompe o cordão umbilical com a cultura da tutela e se assume a responsabilidade irrestrita pelos próprios passos. Apenas quando o indivíduo abandona a ilusão do socorro externo e assume o comando da própria vida é que deixa de ser um dependente do sistema para se tornar o único e legítimo arquiteto do seu destino.

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